sábado, 28 de novembro de 2009

AVESSO

foto de Nadya Kulikova

A pele lisa, o cabelo solto, o sorriso esticado.
Sou toda ostentação da ventura.
Minhas próprias formas de me aconchegar em máscaras.
A conversa proposta,
a gargalhada dissimulada,
a satisfação inventada.

Sou toda arquitetura:
com sacada, paisagem e brisa.
Sou a brisa,
o copo gelado,
o arrepio dos pelos.
Aqui fora, claridade.

Mas o avesso está coberto de sangue.



Samantha Abreu

promessa é dívida

"Fasten your seatbelts. It’s going to be a bumpy night."
Bette Davis em All About Eve, de Joseph L. Mankiewicz - 1950.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Metaforicamente Amor

"(...)Eu quero uma verdade
inventada."
C.Lispector, A paixão segundo GH
Imaginar é natureza.
Se dedos fossem corpo, seria tão mais fácil te amar. Mas os meus nunca se perdem enquanto buscam o tato secreto que te contenha.
Fantasiar-te me exige metáforas plenas. Daquelas que o amor nem sempre concede. Amor oportunista: figurações só são possíveis quando o mimam. Tem sido sempre assim. E sem elas [as tais metáforas] como transformo meu tato no seu?
O amor goza do poder que manipula o imaginário. Pela vontade dele minha natureza trabalha a favor do universo, minha imaginação nos coloca no sentido mais doce dos sonhos, e minhas digitais ficam sensíveis até à minha própria casca.
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Samantha Abreu
foto de olga andriash

domingo, 8 de novembro de 2009

Foto Conto #12

foto de Eugenio Recuenco
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Toda perversidade te impulsiona para fora do que você representa.
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Fuck Songs Vol. 4

1. BB king & Eric Clapton - How Blue Can You Get
2. Ben Harper - In The Colors
3. Aha - Hunting high and low
4. Cowboy Junkies - Sweet Jane
5. Diana Krall - Love Me Like A Man
6. Etta James - I Just Want To Make Love To You
7. Billy Idol - Eyes Without A Face
8. Joe cocker - Never tear us apart
9. Kings of Lion - Closer
10. Aretha Franklin - You Make Me Feel Like A Natural Woman
11. Madonna & Massive Attack - I Want You
12. Nina Simone - do i move you
13. George Michael – I want your sex
14. Patti Smith – Because the Night
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Bônus Track:
Nouvelle Vague - Too Drunk To Fuck
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Fuck Song: do Michelis, música que provoca nos seres humanos ímpetos, vontade ou intenção de dar ínicio à copula. Com fins reprodutivos, ou não.
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Mãos de Medusa


texto e locução de Samantha Abreu

Pra me tirar do giro...

Dentre todos os meus defeitos, tem uma coisa em mim que me faz valer à pena: meu bom e sarcástico humor. Sim, sou uma pessoa que ri das coisas e de si mesma. Pelo menos isso.
Só que, em contrapartida, tenho um veneno letal que me consome em certas circunstâncias, e que me levam a fazer coisas inacreditáveis até pra mim mesma. É o que chamam por aí de perder a cabeça, ter sangue no olho, sair do corpo, etc.
Hoje, por exemplo, para que eu não cometa um crime inafiançável, estou aqui na frente dessa folha do Word. Então, vai aí minha lista de sete coisas que me tiram do corpo, me deixam com sangue nos olhos ou me decepam a cabeça:

1 – pessoas que tentam me ensinar coisas que eu já sei sem sequer me perguntarem antes. A pessoa vai falando e eu balançando a cabeça com um “sim, sei, já sei, ahãm”, mas ela não se toca e continua explicando tudo nos mínimos detalhes, didaticamente elaborado pra me fazer aprender as coisas do seu jeito. AhhhHH!
2 – pessoas que nunca erram. Mas mesmo que você prove que ela falhou, ela explica com aquele tom político (como se eu fosse burra o suficiente pra ser persuadida) o motivo de ter agido de tal forma. O tipo de pessoa que se um dia tocar fogo no mundo por descuido, vai dizer que recebeu uma mensagem divina durante um sonho.
3 – aquele grau de efusão que interfere no meu espaço. Gente que empurra de tanta felicidade, cospe de tanto que fala, dói da tanto que grita, irrita de tanto que existe. Vá de retro.
4 – gente que fala imitando voz de neném. Meu Deus, por que é que alguém ainda acha que isso soa carinhoso ou agradável? Tenho pavor de gente melosa, grudenta, carinhosa demais. Gente que precisa demonstrar a todo o momento o quanto ama, o quanto se dedica, o quanto é sensível e dócil. Comigo o resultado é sempre inverso.
5 – adolescente ou pós-adolescente bêbado em bar. Aí abro um parêntese pra dizer que isso pode ser uma chatice minha, devido minha mania de velha. Mas taí uma coisa que me dá vontade de partir pro espancamento. Lugar de adolescente, ou pós-adolescente, não é em bar. E se for, não é bêbado, e se for, não é dando vexame ou atrapalhando os mais velhos.
6 – filho arteiro de mãe passiva. A criança está lá, derrubando o mundo, e a infeliz do lado: “não faz assim, fulaninho”, “não mexe aí senão a tia briga”, e mais um monte de entonações da psicologia infantil que não serve pra nada além de formar crianças e adolescentes cada vez mais incontroláveis. Meu pai precisou me dar umas palmadas pouquíssimas vezes, mas eu tinha medo só do jeito como ele falava. Já hoje, essa gente mole que não garante respeito nem de cachorro vira lata... ah, não tenho paciência.
7 – gente que mexe em minhas coisas e as tira do lugar. Aí tenho que ressaltar que, embora muitas pessoas insistam nisso quase propositalmente pra me irritar, a campeã nessa arte é minha mãe. Ela tem o dom de sumir com as coisas e insistir em nunca tê-las visto, não saber do que se trata ou fingir que não é com ela. Sim, aí eu dou uns gritos. Sim, ela não vai mudar nunca. Nem eu.
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domingo, 18 de outubro de 2009

Sobre Viver Apesar

Todo sentimento anula
a desgraça libertária de serzisses.
Todo amor desarruma
a independência viril do orgulho.

Não há sensibilidade nas ruas,
não há emoção nesses bares.

Apenas um livrar-se das cotidianas tarefas,
um sair ileso dos convenientes desprendimentos,
o manter-se vivo nesse campo de desconcentração.

Nenhum coração é digno de confiança,
nenhuma razão merece respeito,
e a arte se torna o alívio,
[preparar, apontar: fuzilamento!]
da deslealdade da guerra.


Samantha Abreu
foto de Ellen von Unwerth

sábado, 10 de outubro de 2009

Resignação

foto de akif celebi
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Toda minha força retraída entre a negação e a possibilidade de me servir. Uma lista cheia de idéias que não passam de tópicos, atitudes que não saem da imaginação e vontades que são apenas reformulações precárias dos desejos mais intensos.
Já existiu em mim uma garota partidária de revoluções, adepta das invasões e cheia de fascínio por invenções. Existiu em algum lugar que hoje é apático, onde a apreensão tomou conta, a convenção fez política e a usança se instalou. Essa menina, vez ou outra, esperneia. Seus chutes são de tamanha revolta que estremeço num cambalear indeciso. Dói. Dói. Nessas horas, agacho, miúda, e espero que ela transborde até que se sinta cheia de si e re-adormeça.
De todas as minhas más companhias, nenhuma me parece tão pungente e indesejada quanto esse medo de ser.


Samantha Abreu

Tim Burton Hands

Acho o Tim Burton um dos mais geniais, criativos e incomuns cineastas de todos os tempos. Não, eu não disse o melhor. Disse um dos mais geniais, criativos e incomuns.
Qualquer bom apreciador de cinema é incapaz de resistir a algum de seus filmes. Eu me rendi à vários, entre eles, é claro, Big Fish e Edward Scissorhands. Este último revi hoje com o Pedro, meu sobrinho de cinco anos, e o que mais me deixou feliz foi o fascínio dele com o que via.
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Taí minha cena preferida:
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terça-feira, 29 de setembro de 2009

da desordem dos recomeços

Em nenhuma das costuras que nos remendam ficaremos inteiros: eu, você, você, eu. Hão de se esgarçarem aos impactos, hão de se arrebentarem nas rochas.
Em nenhum dos retoques ficaremos refeitos. Duas cicatrizes de feridas que sempre doerão e continuarão se abrindo pelo ardor de memórias.
Em todos os consertos nos sobrarão rachaduras. Seremos sempre esse desencaixe. Mãos que não se entrelaçam, suores que não colam, pés que não se enroscam. A cara metade deformada pelo tempo e pela tênue linha entre o amor e ódio, filhos da mesma chama: brasas de uma única fogueira, que fagulham juntas mas morrem por ventos de distintas direções. Um contorno mal feito, uma descombinação, um descompasso, uma desproporção.
Uma história sem pé nem cabeça.


Samantha Abreu
foto de reejka

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

CAPRICHO

A vontade
é você
à vontade.



Samantha Abreu
foto de Elle Milla

Do que se aprende com crianças

Depois do nosso jogo de dados, em que ganhei por três a dois, eu e o Pedro – meu sobrinho, cinco anos - batíamos um papo sobre as coisas da vida:
- Não quero mais jogar com você.
- Só porque você perdeu no final? Você ganhou duas vezes!
- Mas você ganhou três.
- A gente não pode ganhar todas as vezes, os outros também precisam ganhar de vez enquando.
Alguns segundos de silêncio, ele vira e me diz:
- Então porque você quer o que Palmeiras ganhe todas as vezes?

Pois é...
Eu até pensei em vários motivos pra dizer a ele como: para não deixar que o Corinthians vença, para todos entenderem que nós somos os melhores ou, até, que essa história de que se deve deixar os outros ganharem uma vez ou outra, serve para as poucas campanhas decentes que o tal timinho alvinegro faz.
Mas preferi não dizer nada. Afinal, a balela de que ‘todo mundo tem que vencer alguma vez’ foi minha.
Quem é que não quer ganhar sempre que pode, néah?

domingo, 6 de setembro de 2009

O céu sobre a língua

foto de rooze
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Uma língua pode ser usada para inúmeras necessidades particulares. Incita-se o beijo, limpa-se os dentes e se contorce no ardido. Mas gosto quando ele a beija, e o faz como se nada mais além de céu da boca e terra do corpo fosse realizável. Movimentos circulares que se perdem na escolha entre um passo atrás ou a total união dos corpos. Deixa meu universo em pleno olho do furacão. Gosto quando a língua dele, forte, domina meu espaço entre os dentes, ultrapassando todos os limites da preponderância.
Uma língua pode ajudar a esconder o segredo contido no envelope, no estancamento do sangue correndo do lado de fora ou na provocação úmida dos ouvidos.
Mas gosto quando ele a beija e o faz como se alcançasse as estrelas que escondo no céu da boca.
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Samantha Abreu

Reestreia: Versos de Falópio!

Queridos,
reestreia hoje o Versos de Falópio!
com um time (quase) novo de 6 mulheres,
e um homem diferente por domingo, jogado na cova, entre elas.
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O primeiro corajoso é Tavinho Paes.
Confira:
http://versosdefalopio.blogspot.com/

sábado, 22 de agosto de 2009

Sal nos Olhos

A chuva lá fora,
mas molhado está aqui,
inundando a casa que é vida
e os olhos que ardem
nessa água de mar.
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Desaguar salga feridas.

Desaguar...
Uma única palavra,
pra tantos litros de mágoas.


Samantha Abreu
foto de Mariah Jelena Kordzadze

Ai, que bom...

Enfim, percebo que há mais vantagem no hedonismo do que se pensa.
E rir incontrolavelmente. E beber, e beijar, e ter os meus por perto, e uma casa com quintal.
Amigos, venham pra cá hoje de novo que o samba tá na vitrola.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Que Menina Feia! Ai, Ai, Ai!

Rá! Essa é ótima!
Como se não bastasse meus textos serem cheios de defeitos, agora são 'copiados' daqui, se é que você me entende...
Isso é bom ou é ruim, afinal, gente?
Pois é. A Izabel Mendonça, de Vitória - ES (aqui!), copia textos de vários blogues aí pela internet e posta como se fossem seus. Que feio, Iza!
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Veja só alguns exemplos:
Meu texto 'A Fome do Mundo' está aqui ó:
Meu texto 'Da arte feminina de (não) ser' está aqui ó:
Meu texto 'As Sete Belezas da Noite' está aqui ó:
Meu texto 'Armadura Moderna' está aqui ó:
Minha poesia 'Estado Indeterminado' está aqui ó:
E até meus desabafos bobos, que nem são textos, ela copiou! (ahahahahaa), entre outros.
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E é claro que no blogue dela não se tem a opção de comentar os textos! Que surpresa!
O único contato que achei foi um endereço de msn. E adicionei, embora esteja certa de que ela não me aceitará, né Iza?
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Então fica meu recado: Izabel Mendonça, querida, assim que vier copiar outro texto, sinta-se à vontade.
Mas saiba, meu bem:
1. Isso é muito feio! Nunca te disseram, não?
2. Dá uma impressão ruim a seu respeito... você parecer ser burrinha, saca?
3. Não é errado creditar tudo o que se copia. Você é jornalista, não é? Devia saber disso, querida.
4. E mais: meus textos não são tão bons assim que mereçam ser copiados.
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Ai, ai, ai... menina feia!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Universo Particular

foto de SnjezanaJosipovic

Existe um universo particular ainda desconhecido.
Pode-se saber algumas cores e dores, sem esperar com isso qualquer tipo de segurança que garanta autodomínio. A ribanceira depois da curva é sempre inesperada.
Desse mundo, até agora não se sabe se redondo, se planície ou pra que lado se deve ir. A única certeza é de que no limite da razão, ainda somos perdoáveis. Mas a um passo depois da linha, não.


Samantha Abreu

o mal mora em mim:

Nesse fim de semana, vi o 'Nossa vida não cabe num opala', de Reinaldo Pinheiro e baseado na peça de Mario Bortolotto. Confesso que vi tardiamente. Já esperava que fosse bom, se tratando de um texto/idéia da cabeça do Mario, mas, pô, o filme é ótimo. E a história é um chute no lugar onde mais te dói.
E eu não posso esquecer de falar da trilha sonora. A maioria é de músicas do Mario com sua banda Tempo Instável. Bluezzzzz!
Nesse momento, urgentemente, vale a pena ver a abertura do filme e a música que vale por mil poemas: AQUI!